A
chita é um tecido de algodão com estampas de cores fortes, geralmente florais,
e tramas simples. A estamparia é feita sobre o tecido conhecido como morim. Uma
estampa característica de chita sobre outro suporte que não seja morim não é
chita.
As
características principais são: cores primárias e secundárias em massas
chapadas que cobrem totalmente a trama, tons vivos, grafite delineando os
desenhos, e a predominância de uma cor. As cores intensas servem, não só para
embelezar o tecido, mas também para disfarçar suas irregularidades, como
eventuais aberturas e imperfeições.
O
nome chita vem do sânscrito chintz, e surgiu na Índia medieval e conquistou os europeus,
antes de se popularizar no Brasil.
Outrora
conhecido como “pano do povo” ou popular, o pano dos escravos passou pela
literatura, artes cênicas (cinema, novela e teatro), artes plásticas, vestiu movimentos
culturais como o tropicalismo, se tornou diferencial alternativo nos costumes
contemporâneos na moda de vestir e de decorar, e hoje pode ser encontrado tanto
vestindo e colorindo as festas populares do mais remoto interior brasileiro bem
como os ambientes considerados mais modernos e sofisticados.
Surgiu
na Índia Medieval e, após a colonização desta pela Inglaterra, foi comercializada
intensamente, invadiu e conquistou a Europa.
História da
chita no Brasil
Algumas imposições retardaram o desenvolvimento
industrial e a produção de chitas brasileiras, como exemplo a decisão tomada
pela rainha Dona Maria I, a louca, em 1785, proibindo qualquer tipo de
manufatura no Brasil e ordenando que todos os teares fossem levados a Portugal.
Em 1808, a partir da chegada do príncipe regente Dom João ao Rio de Janeiro, a
estamparia em tecido começou a se desenvolver, ao revogar o alvará de sua mãe e
autorizar as atividades manufatureiras.
As vestimentas inglesas chegaram ao Brasil mesmo
sem pertencer ao nosso clima tropical, ou seja, roupas pesadas para as pessoas
mais nobres usarem; já os algodões crus e estampados - a chita - eram as roupas
do povo.
Apesar de haver ainda uma grande concorrência entre
os tecidos vindos da Inglaterra e da Índia houve um crescimento manufatureiro
no Brasil. No início do século XIX já existiam no Brasil chitarias. O Colégio
das Fábricas é um exemplo. Inicialmente com um núcleo de artesões, oficializado
como Casa do Antigo Guindaste, onde fabricavam cartas para jogar e estamparia
de Chitas ambas produzidas através da gravura. A primeira grande fábrica de
Chitas do Brasil nasceu em 1872 em Curvelo, Minas Gerais, a Companhia de Fiação
e Tecidos Cedro e Cachoeira, a qual, porém, parou sua produção de Chitas em
1973. Em 1889 inaugurou a fábrica Bangu no Rio de Janeiro com maquinário
britânico.
De todas as regiões brasileiras apenas o sul do
país não produziu Chita na história têxtil voltando-se sempre à malharia, lã e
tecidos sintéticos.
A chita veio para o Brasil com os europeus a partir
de 1800. O tecido originário da Índia passou por várias melhorias até chegar ao
que temos hoje. Após um longo processo burocrático, cultural e financeiro, a
chita passou a ser produzida também no Brasil. A produção do tecido no país o
barateou, e muito, tornando populares as peças confeccionadas com o material,
transformando-o, assim, em um dos ícones da identidade nacional.
Atualmente vem sendo valorizado também na
decoração, principalmente como referência estética. De tempos em tempos, ganha
espaço em passarelas, galerias de arte, vitrines e palcos, quando estilistas,
artistas plásticos, designers e outros criadores redescobrem estas estampas e
as incorporam a suas produções.
O
Século das Chitas
Até
o final dos anos do século XX, a manufatura têxtil de algodão absorvia 40% do
nosso capital e 23% de toda a nossa mão-de-obra empregada em nossa indústria. A
estamparia ia a pleno vapor no ano de 1885 e as chitas já eram fabricadas em
larga escala em grandes empresas.
Algodão |
Em
1887 foi fundada a Companhia Fabril Mascarenhas. Começava ali a trajetória de
uma empresa que não cresceria muito, mas que começaria a produzir a chita nos
anos 70 e o chitão na década seguinte, mantendo essa produção em plena
atividade até os dias de hoje, sob o comando do neto do coronel Mascarenhas, José
Henrique Mascarenhas.
Companhia Frabril Mascarenhas |
A
Primeira Guerra Mundial teria efeito benéfico sobre a produção brasileira. Os
países europeus tiveram suas produções manufaturadas suspensas e se dedicaram à
produção de armas. Logo, o Brasil começou a tomar lugar de destaque no comércio
internacional de produtos manufaturados.
De 1931 a 1938 a produção nacional de
tecidos de algodão cresceu em cerca de 50%, alcançando os 963.757.666 metros
anuais. É desse período a fundação da Fiação e Tecelagem São José, em Mariana,
Minas Gerais. Nela começou a produção de chita e a gestação do chitão.
Funcionários da Fiação e Tecelage São José |
Em 1944 era aberta em Contagem, cidade na região
metropolitana de Belo Horizonte, a Estamparia S.A., que é uma das poucas
empresas que ainda produz chita, mas apenas 100 mil a 150 mil metros por mês, o
que corresponde a 5% de sua produção mensal de tecidos.
Com o fim da guerra, a chita continuava vestindo os
trabalhadores braçais e os moradores das regiões rurais, e era, e ainda é, o
pano característico das festas populares.
Também era usada nas periferias urbanas. Era a
vestimenta do dia-a-dia ou a chamada roupa de brincar das crianças.
Como surgiu o Chitão
As revistas femininas da época ditavam a moda,
vinda de Paris e ensinavam o comportamento feminino ideal: o de submissa
rainha do lar.
A drástica virada de mesa dos anos 60 ainda estava
por vir, para mudar os rumos de lares, mulheres, rainhas, moda e usos da chita.
A Fábrica de Tecidos Bangu deixara de produzir
chita para pesquisar, desenvolver e produzir tecidos de qualidade à altura do
mercado internacional, usando principalmente o algodão como matéria-prima.
Encerraria, assim, sua função inicial de grande produtora de morins e chitas.
Até o encerramento de suas atividades, existia na sede da fábrica, no Rio de
Janeiro, a chamada Sala das Chitas.
Ao
final da década de 50 a Fiação e tecelagem São José começou a produzir chitas
com larguras maiores, pois até então eram produzidas com 60 cm ou 90 cm de
largura em função da largura dos teares. Buscando alternativas a esta
limitação, foram cortados dois teares de 90 cm para fazer um de 1,20 m a fim de
tecer peças mais largas. A essa nova chita,
mais larga, deu-se o nome de chitão, que “só deu certo e foi divulgado na
década de 1960, quando todo mundo começou a fazer também”, recorda-se Oziris
Cimino, diretor comercial da Fiação e Tecelagem São José.
Chitão |
A
Fabril Mascarenhas chegou a ter 150 estampas diferentes de Chitão, porém hoje
possui em média oito estampas, tendo uma variada cartela de cores.
Apesar
de o náilon ter conquistado o mundo, a Chita continuava vestindo os
trabalhadores e moradores das regiões rurais; era o pano das crianças brincarem
e a decoração das festas populares. Hoje , o que caracteriza o chitão são as dimensões e as cores de suas estampas florais. Se alguém fizer essa estampa sobre outro suporte que não seja morim , certamente a referência do novo tecido será “estampa de chitão”, ou seja Chitão - tecido com características de suas cores vibrantes e suas formas florais exageradas.
A Chita: Do Popular Para A Moda
No
Brasil atual, não se pode falar nas estampas sem se falar em chita. E não se
pode falar em chita sem falar em povo. A chita nasceu pano popular. Vestiu
populações carentes, escravos. Era o paninho barato, de fácil acesso ao povo.
Cresceu, apareceu se espalhou e se transformou “na cara do Brasil”.
As
roupas de Chitão já foram característica do movimento hippie, identificando-se
com o poder dos jovens, flower power, o feminismo, black power, paz e amor, o
psicodelismo, as mudanças radicais. As repressões militares estagnaram o setor
têxtil, fechando 130 tecelagens em três anos; enquanto isso os norte-americanos
criavam tecidos com fibras sintéticas que não amassavam. Criou-se então no
Brasil o GEITEX - Grupo Executivo da Indústria Têxtil - que estabeleceu metas
para corrigir a situação e conseguiu o apoio do governo às empresas para a
fabricação de morim, chita estampada e outros nove tipos de tecidos (MELÃO;
IMBROISI e KUBRUSLY, (2005).
As
Chitas vestiram personagens de novelas como é o caso de Gabriela de Jorge
Amado, o apresentador Chacrinha e foram usadas pela estilista Zuzu Angel;
também vestiram Gilberto Gil, Caetano Veloso, passando a ser uma assinatura da
alma brasileira durante a repressão.
FARM, Coleção Verão 2010 e Sommer, Coleção Verão 2008. |
No
Brasil, depois de séculos vestindo trabalhadores braçais, moradores de zonas
rurais, meninas das festas de interior, entre outros, a chita fez parte do movimento
hippie e foi parar nas passarelas internacionais. Zuzu Angel (1923-1976), estilista
brasileira vítima da ditadura militar no país, foi pioneira no uso do tecido em
suas ousadas coleções e o levou em uma viagem de volta à Europa, completando assim
um círculo de evolução e um retorno às origens. “A chita no corpo e no cenário
dos movimentos artísticos e revolucionários, em plena vitória da repressão, era
uma assinatura da alma brasileira, um desafio, quase um descaramento.” (MELLÃO,
2005, p. 127).
Além
das roupas, o universo dos acessórios de moda também passou a utilizá-la.
O
Tropicalismo nascido na Arte Conceitual de Oiticica (1937-1980) e Clark (1920-1988)
e que teve adesão de músicos, cineastas e intelectuais brasileiros, revolucionou
a música popular brasileira em 1968, intervindo na cena cultural do país de
forma crítica e vestiu-se com a já então brasileiríssima chita. Podemos dizer que
o Tropicalismo tornou fato as palavras de Flügel: “[...] que o não conformismo nas
roupas tende naturalmente a expressar o não-conformismo em ideias sociais e políticas”.
(FLÜGEL, 1966, p. 189).
Os
anos 70 trouxeram um enorme colorido e transformações no vestuário, principalmente
feminino, sendo uma porta aberta para a entrada e consagração da chita como
tecido da mulher brasileira. Na telenovela de 1975 da Rede Globo de Televisão,
Gabriela, a pobre, linda e sensual protagonista, vestida de chita, lançou moda
e foi imitada por milhares de brasileiras, transformando em moda algo tão próximo
da realidade popular, como Mellão nos conta em seu livro: “[...] o vestidinho de
chita já era considerado indispensável para a mulher brasileira: básico,
simples, fresquinho, ideal para o verão que aquece dois terços deste país
durante três terços do ano”. (MELLÃO, 2005, p. 71).
O caminho da chita partindo da
moda e migrando para a decoração foi percorrido naturalmente. A mesma chita que
vestia os menos favorecidos, camponeses, ex-escravos, já enfeitava as casas
modestas do povo brasileiro. Aos poucos foi invadindo casas da cidade como
estilo de decoração autêntica, podendo ser encontrada nas cortinas, almofadas,
toalhas de mesa, entre outros, talvez como uma maneira de transportar para
dentro de casa a exuberância da natureza tão inacessível nas cidades mais
desenvolvidas.
Nossas chitas, de puro
algodão, sempre muito coloridas e geralmente mostrando motivos florais, podem
ser vistas tanto em colchas e cortinas de humildes casebres quanto na decoração
de ricas sedes de fazendas ou, ainda, alegrando danças folclóricas e festas
juninas. (PEZZOLO, 2007, p.49)
Hoje, o que caracteriza o chitão são as dimensões e
as cores de suas estampas florais. Se alguém fizer essa estampa sobre outro
suporte que não seja morim, certamente a referência do novo tecido será
“estampa de chitão”.
A Chita em
Paulo Jacinto
A
chita em Paulo Jacinto deu nome a um baile e foi adotada como tecido mestre de
um dos eventos mais conhecido do Estado de Alagoas, o Baile da Chita. O Baile
teve sua primeira edição em 1952 e tinha por finalidade angariar fundos para
emancipação da Vila.
57ª Festa da Chita |
Escolha da próxima rainha. |
A
chita era o tecido da época e estava no auge de sua comercialização e os
organizadores do baile resolveram tomar o tecido como referência a festa. Todos
os participantes e as candidatas ao título de rainha da chita, vestiam roupas
com a estampa de Chita, além do tecido fazer parte da ornamentação dos galpões
da lagense onde era realizada a festa.
Ornamentação da cidade para festa. |
Atualmente
existe um ateliê batizado da “Chita ao Chique” no centro da cidade onde o
tecido é utilizado na confecção das mais variadas peças de roupas e acessórios,
e como é tradição ainda se usa muito a estampa seja para ir a festa que é
realizada no mês de julho e na decoração do espaço festivo.
Referencias:
blog tudojuntoemisturadopaty / dorcasrenascer.
Brasil vestido de sol - Mariana Binato / Reinilda de Fátima.
O
significado da cor na estampa do tecido popular: a chita como estudo de caso - Maria Diaz Rocha / Mônica
Queiroz
FABRIL MASCARENHAS - Empresa de tecidos.
Disponível em: <http://www.fabril.com.br> Acesso em Outubro de 2009.
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